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Quem foi BlackOut? pensando diagnóstico a partir da experiência de um poeta institucionalizado.

  • hawesolga
  • 16 de jan. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de jan. de 2023

“Se eu descesse o morro de sandálias, vestido como todo mundo, as pessoas iriam logo pensar que eu sou um marginal… Se eu desço vestido assim, bem produzido, elas ficam pensando pelo menos que eu sou um marginal diferente, sacou o lance?” (BlackOut)


(imagem: figura de Edgar Borges na escadaria de Mãe Luiza, em Natal/RN, arte de Erre Rodrigo)


Edgar ' Blackout' Borges, o Poeta Preto potiguar


foi uma importante figura do cenário cultural de Natal/RN nos anos 90. Ficou conhecido por ser uma personalidade excêntrica que andava pelas ruas vestido de maneira irreverente e distribuindo poemas: “É o meu traje a rigor que incomoda eles”, costumava dizer o poeta. Nascido em Mãe Luiza, em várias de suas peregrinações, foi vítima de violências racistas por parte da polícia militar, experiências que o levaram a uma internação no hospital da colônia (manicômio da cidade). Faleceu em 99, numa ironia infeliz, enquanto fazia um bico como eletricista e foi apagado da história cultural formal da cidade.



A existência de Blackout faz pensar:


Ao falar de saúde mental estamos falando da saúde ou da doença? Muitas vezes, até sem perceber, justificamos o ato de alguém por meio de um diagnóstico, “se matou porque tinha depressão”, “é esquizofrênico, por isso é violento”, como uma força externa à pessoa, um defeito no cérebro, uma “energia ruim”, “falta de deus”. Esse pensamento é prejudicial primeiro porque cristaliza a pessoa, retirando dela tudo que há de subjetivo: o lugar de onde veio, sua música preferida, uma violência sofrida, a cor da sua pele, que escreve poemas. Ainda, assumimos assim que há um modelo de saúde universal, portanto o tratamento seria o mesmo para todos. Esse modelo geralmente tem a ver com manter certa “funcionalidade”: trabalhar e consumir, ser independente, e o tratamento, em uma medicação que garante essa funcionalidade. Mas acontece que, pasmem, somos diferentes uns dos outros, e algumas pessoas precisam de diferentes tipos de suporte cognitivo, cultural, emocional e até financeiro. Um diagnóstico, se descontextualizado, serve à lógica liberal que desresponsabiliza as instituições e anestesia o sujeito: se eu sou doente, o problema é meu, e não do mundo, então por que questioná-lo?


"Grite no quarto ao entrar

Para que haja paz

E no amanhecer

Me diz o resultado."

(BlackOut, no poema 'mexa-se')


A partir dessa lógica, historicamente, a psicologia justificou extermínios e encarceramentos, em sua maioria de pessoas pobres e racializadas. Como ratos de laboratório, os “loucos e desviantes” eram presos em manicômios onde supostamente seriam curados. Submetidos a tratamentos invasivos, tornavam-se incapazes de responder por si mesmos, sendo condenados à exclusão social. Coisa parecida acontece hoje em dia, quando vivemos uma crise de opioides nos EUA e um pós-pandemia brutal na américa latina, com sujeitos cada vez + medicalizados.


Mas calma, isso não é uma carta de repúdio à medicação. Quem mais sabe o tamanho da baleia é aquele que a carrega nos braços, portanto devemos sim contar com as medidas disponíveis para lidar com este mundo. Que o façamos criticamente.


Não nos enganemos: para essa lógica, perdemos e seguiremos perdendo inúmeras existências singulares. E ainda que um grito de dor assuste, está bem mais próximo da saúde que o silêncio das mordaças.


 
 
 

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