Entre a cruz da produção e a espada do consumo, toda invenção é um instrumento de guerra.
- hawesolga
- 17 de jan. de 2023
- 2 min de leitura

“Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover. [...] Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim”. (Ailton Krenak)
Em experiências clínicas, venho escutando sobre a dolorosa comparação das redes sociais, onde vemos todos comemorando conquistas profissionais, relacionamentos, beleza, festas e looks do dia. Cada vez mais, parecemos viver em um mundo em que somos o que fazemos ou o que compramos. Como sintoma, sentimos uma ansiedade de “ser” cada vez mais. E ser significa ter e fazer. Trabalhar mais, consumir mais. Até onde podemos mais? Essa herança imperialista/colonial que nos diz que somos o que conquistamos (colonizamos) ou aquilo que podemos oferecer a quem nos domina (nosso trabalho) cria desejos de ser e se relacionar ilusórios que causam mais e mais sofrimento, dia após dia.
Por causa disso, muito me inquieta o movimento contrário na clínica. Para onde vai aquilo que não postamos, os desejos e as ideias que não contamos, exceto ao pé do ouvido, na penumbra da noite, apenas para aqueles que amamos? As realidades com as quais sonhamos, as coisas que vemos no nosso bairro, no futebol com os amigos, as piadas das quais só a gente ri, o modo como descrevemos uma paisagem. Essas são as nossas invenções.

“A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê.” (Paulo Leminski)
Quando Leminski nomeia a poesia como “inutensílio”, acredito que ele a aproxima daquilo que temos de mais humano: as coisas que fazemos por pura necessidade existencial, por fome, se não do estômago, do espírito. Em um mundo que cada vez mais empurra goela abaixo soluções fáceis, checklists de “obrigações” para ser alguém e levar uma vida bem sucedida, penso que é preciso distanciar-se um pouco da obrigação e se inclinar para a invenção.
Todos os dias inventamos. Krenak nos lembra que não apenas pessoas, mas comunidades inventam. É da natureza humana pensar, ter consciência e construir mundo a partir disso. Inventar é, também, combater.
Que a terapia possa ser um espaço dos inutensílios, do devaneio, uma possibilidade de combater o sofrimento criando sonhos e perseguindo-os.
“a indigência da vida sem sonhos é terrível, é o pior tipo de loucura” - Sylvia Plath

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